segunda-feira, 23 de julho de 2018

Viagens d’um Maçarico - O sonho escocês - parte 2


 
 Não consigo esquecer a viagem mais marcante da minha vida. Pode parecer que estou a ser um pouco exagerado, mas o que querem? É o que faz não ser um sujeito dos mais viajados.
 Neste segundo texto sobre a minha viagem vou focar-me sobre a ilha de Sky, o lago Ness, Inverness e o regresso a Edimburgo por uma das estradas mais bonitas que percorremos.
Chegados a Mallaig dirigimo-nos ao Porto marítimo para apanhar um ferry para outro destino de natureza pura, onde parece que o tempo parou, a ilha de Skye. 
 Durante a viagem, e enquanto nos aproximávamos da ilha menor a paisagem era cada vez mais espetacular. A vista para a baía de Armadale era lindíssima, com as suas casas estrategicamente colocadas no meio do verde e viradas para o mar, faziam daquele lugar mais um cenário de sonho.
Chegados a terra seguimos de imediato para Elgol, não tanto pela beleza dessa aldeia encostada ao mar, mas mais pela beleza de todo o percurso até lá que faz daquele trajeto um momento marcante da nossa viagem.


 Dali partimos numa viagem algo cansativa, já marcada pela manhã atarefada e cheia de locais paradisíacos, até Dunvengan onde iríamos pernoitar. Mas ainda naquele dia, antes do jantar fizemo-nos à estrada, se é que se pode chamar aquilo de estrada, para conhecer o Neist Point Lighthouse, um farol erigido numa escarpa e com uma vista de cortar a respiração. Para que não tenhas uma surpresa, atenção que no fim da estrada, espera-nos uma caminhada de 15 minutos para cada lado. Mas vale bem a pena.
 De volta a Dunvengan, foi ali, na verdadeira morada do clã McLoad que experimentamos a essência da cozinha escocesa no Restaurante The Old School. Excelente ambiente, boa cozinha e pessoal simpático. É recomendável marcar mesa pois enche com facilidade. Aliás quanto às refeições convém ter em atenção que a partir das 22 horas é difícil encontrar restaurantes abertos. É uma cultura diferente da portuguesa onde se come a qualquer hora e em todo o lugar, o mais não seja numa roulote qualquer. Na Escócia não é assim.








 No dia seguinte fizemos o nosso roteiro pela ilha de Skye pela seguinte ordem Dunvengan, Uig, The Quiraing (aqui paramos mais de meia hora só a apreciar a vista), Kilt Rock and Mealt Falls, Portree e de volta à ilha maior. Não posso deixar de salientar a beleza da vila pitoresca de Portree, com as suas casas coloridas e as suas ruas cheias de gente que tornam o comércio de rua uma atração local.



 Saí de Skye com o coração cheio e a ideia de que coisas simples podem tornar a vida tão boa! 
 Mas Skye teria de ser a muito custo apenas uma boa memória que jamais quero perder. Mas ainda havia tanto para visitar e o tempo era escasso. Logo saímos em direção a um dos pontos altos da nossa road trip, o Eilean Donan Castle, o castelo mais fotografado da Escócia. É simplesmente brutal. Uma simbiose perfeita entre a mão de Deus e a mão humana. A paisagem natural era espetacular e a forma como há alguns séculos atrás decidiram anexar àquela imagem um castelo só mostra que sempre foram pessoas de muito bom gosto.



 Visto e fotografado este monumento nacional, seguimos em direção ao lago Ness e ao Castelo de Urquhart.  Este era um dos castelos que queríamos visitar, por toda a envolvência, pela história, e que tem uma visita muito bem planeada da qual destaco o filme que conta a história daquele local e que acaba de uma forma espetacular. Não vou contar para ser surpresa.



 É importante referir que todo o percurso desde a entrada na ilha maior é de uma beleza incondicional. 
 Chegámos a Inverness já bem tarde, sendo que fomos os últimos hóspedes do B&B Jacobite Rose.
 A curta estada em Inverness foi muito agradável. Era sexta-feira e a cidade ganha outra vida com pubs e bares por todo o lado, cheios de gente local que fazem questão de se aperaltarem como se fossem a um casamento. É uma cidade que mistura bem o desenvolvimento com a história do país, a arquitetura moderna com os edifícios antigos. Muito comércio de rua, um tanto ou quanto virado para o turismo. Adorei esta cidade. 
 No outro dia, já de barriga cheia, culpa de um pequeno-almoço monumental, que aliás era costumeiro naquelas bandas, seguimos pela A9 em direção a Edimburgo. 
Contudo, não fizemos esta estrada, que é um misto de auto estrada e via rápida, até o fim. Saímos em Ballinluig pela A827, uma rota turística com muitos pontos de interesse com muitas imagens fotográficas à mistura. A primeira paragem foi na Ian Burnet, Highland Chocolatier, uma chocolateira que trabalha cerca de uma tonelada de chocolate por semana. Experimentamos uma fatia de bolo de chocolate, acompanhada por um reconfortante chocolate quente aveludado. Recomendadíssimo! (Será que esta palavra existe?)



 Partimos já atrasados mas sem pressa para visitar a destilaria de whiskey mais antiga da Escócia (é que vir à Escócia e não visitar um destilaria... vocês sabem), a Famous Grouse Experience. Não é onde agora se faz este famoso whiskey mas ainda se produz ali, de forma artesanal, um single malt que pertence à mesma família.



 Foi uma visita muito interessante e bonita pois a destilaria está no meio do paraíso.
 Voltamos a Edimburgo de coração cheio de uma imensidão de experiências vividas, onde ainda pernoitamos pois o Avião era só no dia seguinte. Não viemos embora sem experimentar um pequeno-almoço almoço diferente num ambiente descontraído mas cheio de vida no Artisan Roast Caffe. Vale a pena a visita o mais não seja para beber um latte personalizado. 



 Esta viagem valeu cada quilómetro, cada bater do coração e cada momento de silêncio enquanto nos deliciávamos com a paisagem. E ficou tanto para ver...
 Exigiu uma boa planificação mas resultou bem e conseguimos ver o que nos propusemos. 
 De volta a Lisboa as saudades do Bailey eram mais que muitas. Foi um encontro emotivo e cheio de ternura. O sujeito permitiu-nos assim voltar à rotina com menos custo.
 Mas a Escócia, essa ficará sempre no meu coração. Um sonho tornado realidade. 
 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Viagens d’um Maçarico - Escócia - Vale a pena sonhar

Sabes aquele momento em que ages por impulso e tomas decisões que depois reconheces que teriam sido melhor de outra forma? 
 Foi assim com a adopção do Bailey. Ainda agora tinha chegado ao nosso meio e já nos íamos separar. Tudo por causa da há muito planeada viagem à Escócia. 
Era um sonho prestes a ser realidade. Mas havia o 4° elemento, que não era um impecilho, muito pelo contrário, mas obrigava a um planeamento cuidado. 
Comecei por procurar um hotel para cães onde ele pudesse ficar durante a nossa estadia, mas por ainda não ter todo o plano de vacinação isso não era possível. Até que um casal amigo, sabendo da nossa situação, ofereceu-se sem hesitar, para hospedar o amigo de 4 patas. De início não achamos boa ideia, ia ser um trabalho extra para alguém que já tinha uma vida muito ocupada, ainda por cima num período em que o sujeito exige mais atenção. Mas eles insistiram e lá foi ele de férias para Alenquer. Um viajado o moço, ainda agora tinha nascido e já tinha passado por Pombal, Prior Velho e Alenquer.
 Assim, lá partimos nós, com o objectivo bem traçado da realização de um sonho de menino que era conhecer o país do clã MCLeod e onde as saias eram mais do que um símbolo feminino.
 Seguimos numa terça de manhã de Lisboa para Edimburgo, onde chegamos ao início da tarde.






A cidade era muito simples de percorrer a pé com as principais atrações bem perto umas das outras. É uma cidade com muita história da qual fazem parte o Castelo, a Royal Mile, a Princess street e a imponente vista da Calton Hill.
Ali dormimos a primeira noite, sendo que foi no dia seguinte que arrancamos para a parte mais épica desta viagem, o roteiro pelas Highlands. Antes disso uma incursão a Stirling, onde visitamos o monumento de homenagem a William Wallace, um dos principais líderes na luta pela independência da Escócia. 




Vale bem a pena a visita, quer pela envolvência, quer pela história. 
 De seguida, agora sim, em direcção às Highlands. Ali encontramos o estreito de Glencoe onde o mais exuberante dos seres humanos se deve sentir pequenino, pequenino! 














Essa vista e a chegada ao B&B onde íamos dormir marcou aquele dia. Era deslumbrante a natureza que rodeava o nosso quarto, com um lago que servia de espelho às montanhas que rodeavam as suas margens e que entrava pela janela do nosso quarto a dentro. Já agora, o nome do B&B é Campfield House e ficava à entrada de  Fort William.
No terceiro dia e com o pequeno almoço tomado fomos até ao parque de Glen Nevis onde voltamos a perder o fôlego com a natureza em estado bruto que marcava toda a paisagem. Chegou a ser cenário do filme Braveheart onde se construiu uma aldeia à época, de raiz. Essa aldeia já não existe, mas o cenário envolvente responde bem à questão sobre o porquê na escolha daquele local. Riachos, serra, verde e um silêncio ensordecedor só interrompido pelo vento que soprava e de um carro que de quando em vez tentava estragar aquele momento mas sem sucesso.




De seguida seguimos em direção a Mallaig no rasto da linha férrea do famoso Jacobite, o comboio a vapor que transportava os aprendizes de mágicos no filme Harry Potter. 


Pelo meio chegámos a Glenfinnan, uma pequena localidade com uma vista de cortar a respiração para mais um dos lagos que acompanham todo este percurso. De um lado a água, do outro o viaduto de Glenfinnan onde circula o dito comboio e que apareceu no mesmo filme. Visita obrigatória!



 Aliás toda a viagem é embelezada com cenários usados pelos melhores produtores cinematográficos.
Mas a nossa road trip não se ficou por aqui. 
 Muito em breve partilharei convosco o resto da minha viagem de sonho. Até lá sonhem também. Boas viagens!


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bailey, O Beagle- primeiro acidente de percurso



Que os beagles eram destemidos e cães de caça por natureza eu já sabia. Mas o Bailey é tudo isso com uns pózinhos de Flash Gordon reguila, um traquina arraçado de beagle. 
 Em casa, está sempre onde nós estamos. Quando passa como se nada fosse, em direcção ao seu posto de controlo, a cama estrategicamente colocada na cozinha lá de casa, é porque já fez alguma, é sinal de que tem em seu poder algo que não lhe pertence, por norma, uma peça de roupa que desviou do roupeiro de um membro da família mais incauto. Um verdadeiro larápio. 
A vida com o Sir Bailey nesta fase da sua juventude é um desafio. A palavra que mais se usa lá em casa, a seguir ao seu nome, é não. 


No quarto, Bailey não; na sala, Bailey não; no wc, Bailey não. Não, não, não, a toda a hora e a todo o momento. Ele é um xixi num sítio inadequado, ele é um cocó em casa logo depois de um passeio de 1 hora pelas ruas do bairro. 
 Deitar-me um pouco no sofá significa ter de partilhar o espaço com o canídeo ou então ter de me sujeitar a um chamar de atenção constante que tanto passa por mordiscar os meus pés como por fazer porcaria na sala para chamar a atenção.
 No último fim‑de‑semana, num dos passeios pelas ruas do bairro, o sujeito lembrou-se de fazer uma incursão a um pequeno canto, minado de praganas. O resultado? Pragana numa narina e ida à urgência do hospital veterinário Vasco da Gama, no Parque das Nações, para retirar a mesma. Ok, a culpa foi minha, eu sei.
 A equipa que o atendeu era espetacular, muito simpática e cuidadosa. Contudo, o cão disfarçado de destemido, afinal não passa de um cachorro maricas e só de o pegarem para deitar na maca começou a ganir como se tivessem a amputar um membro ao desgraçado a sangue frio. Ao mesmo tempo que era angustiante assistir àquilo, dava piada ver que não passava de um teatro canino bem montado.
 São momentos desafiadores que por vezes tiram a paciência mas compensados com os risos que as suas diabruras arrancam.
Hoje, quando a Susana foi com ele à rua, encontrou uma vizinha que confessou que quase deu o seu cão quando ele era miúdo, por fazê-la a perder a paciência. Essa fase durou até os sete meses. 
Quanto tempo vais durar essa fase no Sir Bailey? O que virá depois disso? Não sei responder mas espero que quer ele quer eu, estejamos cá para assistir a isso.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Uma Estrela na Serra



Pode até parecer que me contento com pouco, que seja. Mas a verdade é que ao ter cumprido este feito criei uma sensação de realização pessoal como nunca tinha sentido. Tudo começou quando após ganhar o bichinho do ciclismo, alimentei o sonho de subir ao topo de Portugal Continental em bicicleta. Depressa esse sonho virou obsessão e após várias outras realizações cicloturisticas, começou a ganhar forma a ideia que durante tanto tempo me alimentou a imaginação.
Para tal fui convencendo alguns colegas do pedal e de profissão para tal estirada que nos ia marcar para sempre. Foi isso mesmo que aconteceu. 
No dia 12 de Maio, enquanto alguns davam os últimos passos numa peregrinação que alimenta a sua fé, eu e mais cinco destemidos lá arrancamos bem cedo pela manhã com o objectivo bem traçado. 
 Foi interessante ouvir um ou outro dizer “não há problema, se não conseguir volto para trás”. Mas eu tinha a certeza que íamos ser bem sucedidos, a motivação era maior que o obstáculo que tínhamos de superar, a vontade era mais forte que os músculos que tínhamos de usar. Nunca duvidei que não era qualquer um, o imprevisto, que nos ia demover do nosso objectivo. Assim, lá chegámos à Covilhã, como uma ansiedade no estômago que quase interrompeu o sonho a um dos aventureiros. Mas não havia como! A ideia estava tão interiorizada que nem um percalço físico nos ia travar, fosse ele de que magnitude fosse, pelo menos era esta a ideia que alimentava a minha vontade. 
 Arrancamos da Covilhã para Manteigas com a ideia de que esta fase do percurso era a mais simples de superar. Mas ao fim de 5 quilómetros já estávamos a subir a Serra da Contenda numa escalada de 7 quilómetros até ao topo. Mas valeu bem a pena esta subida, pois a vista com que nos deliciamos foi de uma beleza inqualificável. Aconselho vivamente a quem não tem mais nada para fazer do que ler o meu blog que se ponha à estrada (podes ler o blog depois que eu deixo) e vá descobrir este pedaço de paraíso.
Chegámos a Manteigas com um bom aquecimento nas pernas e com o vale glaciar a dar-nos as boas vindas. Uma curta paragem para o cafezinho da praxe e toca a subir para não arrefecer. A aventura ganhou proporções dantescas a partir deste ponto. Já tinha feito esta subida de carro, mas de bicicleta é incrível.
O som do rio Zezere que serpenteia por entre as pedras do vale e das cascatas que caem num caos organizado, onde de longe somos brindados com a paisagem calma e serena, mas ao chegar perto o barulho faz-nos perceber o quanto somos um grão neste planeta que nos dá guarida.
Quanto mais subimos, mais sentimos a dificuldade do percurso, a pressão nas pernas, o frio na cara. Tudo isto leva as minhas emoções ao rubro. Estavam espalhadas em mim e os meus companheiros notaram isso. Nos últimos 6 quilómetros a dificuldade aumenta substancialmente e passaram muitas coisas pela cabeça, parar um pouco talvez, desistir nunca, mas nunca mesmo!
 Até que após curva sobre curva lá aparece a indicação “Torre 200 mts”. Os músculos renovaram-se e a alma também. Voltou a motivação e o sorriso nos lábios enregelados. Após o últimos esforço lá chegámos ao topo onde nos aguardava a bela sandes de queijo da serra e presunto que os vendedores preparavam a quem por lá passava. 


A descida foi quase tão difícil como a subida, principalmente na primeira fase. É que o frio que se fazia sentir entrava pelo peito e quase não deixava respirar. 
Mas com coragem, e sensação de dever cumprido lá chegámos à Covilhã onde nos aguardava o transporte para a viagem de regresso. 
 Podia adjectivar esta vivência de muitas maneiras mas só me ocorre uma palavra, gratidão.
Gratidão por todos os que me acompanharam, gratidão pela Susana que me ajudou a preparar isto tudo, gratidão por Deus me dar forças e condição física para realizar este sonho. Outras aventuras vêm aí mas esta nunca sairá da memória, estejam atentos.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Welcome Bailey


É verdade! Voltamos a ser uma família de 4 seres. A particularidade de não serem todos humanos é apenas isso, uma partícula no verdadeiro sentido da palavra família. 
 Éramos nós três e o Capitão Nemo, o labrador que por muitos anos nos deliciou com as suas brincadeiras e com o seu pachorrento estilo de vida. Deliciava aos espectadores presentes ver a Didi, que até ali era filha única, ainda com 4 aninhos, a brincar com o seu serviço de cozinha da Moranguinho enquanto o Nemo fazia de visita, ao sentar-se no topo da mesa do jardim, aguardando pacientemente o prato que carregava a bolacha Maria que ele iria devorar num literal abrir e fechar de olhos. Aquela bolacha fazia com todo aquela espera valesse a pena. E se ele esperava! Sim, que a pequena não estava sempre a alimentar o bicho, o objectivo era prendê-lo àquela brincadeira o mais tempo possível.

 Dava um gozo, principalmente no verão, ir caminhar com o capitão. Quando chegava a casa, após alguns quilómetros, já parecia um caranguejo, a andar de lado, não fosse o nome do sujeito ligado às aventuras marítimas. E se ele gostava de praia!
 Foram muitos momentos marcantes, divertidos, carinhosos, que criaram, com a partida do capitão, uma revolta que assolou a família durante algum tempo, a ponto de ser unânime a ideia de que “animais nunca mais.” Mas já estávamos tão habituados à ideia de uma família de 4 membros, que depressa voltou o bichinho de querer fazer crescer o clã. Não era uma substituição, o Nemo é insubstituível, era antes um acrescento ao nosso coração.
 Assim surgiu o Bailey, o beagle cá da casa. 
 O nome foi uma escolha da Didi, afinal ela é que é a beagle’s mamma.
 Não foi uma ideia unânime, mas consensual, a que nos levou até Pombal para ir buscar este menino de olhos mimados. Pura ilusão, afinal o jeitoso é um atrevido de primeira, sempre disposto a ir à aventura e em busca de novas descobertas. Tão eu o raio do cão, aventureiro, extrovertido, mas lá no fundo um mimado por natureza.
Tem sido uma vivência tão divertida quanto desafiadora. Ter outro ser aos nossos cuidados exige dar de nós 24 horas por dia, exige fazer planos em cima dos planos. Agora há uma pergunta que tem de vir sempre quando se planeia o que quer que seja, “como é com o Bailey?” Sim, porque o Bailey agora faz parte. 
 Mas é tão bom! Vê-lo adormecer com a cabeça no nosso colo, a correr com aquelas orelhas a esvoaçar, a olhar-nos com a cabeça de lado como se perguntasse “como é?”.
 É bom ver a evolução, semana após semana, ver aquele menino tornar-se num rapagão.
 Vou tentar partilhar convosco essa peripécia com a regularidade possível.
 Aguardem notícias de novas aventuras.
 

terça-feira, 13 de março de 2018

Uma Aventura na Serra da Arrábida



Épica! É a palavra que melhor descreve a minha aventura do último fim‑de‑semana. 
“Foi mais uma aventura em bicicleta, como tantas outras”, dirão. Mas a verdade é que foi muito mais que isso.
 Nunca esta alminha tinha estado num aglomerado tão grande de outras alminhas, com os seus fatos de licra e as suas imponentes máquinas de sugar quilómetros de estrada, para participar numa prova organizada, ainda por cima pela zona de Setúbal, Sesimbra e Arrábida. O ambiente a que assisti e do qual fiz parte, foi algo que nunca tinha vivenciado.
 Saímos de casa bem cedo em direcção à desgastada ponte 25 de Abril, de onde seguimos para Setúbal. Ali fizemos um abastecimento à base de um croissant de chocolate e um abatanado (sim, que eu sou um atleta mas não sou muçulmano, logo não tenho de praticar nenhum tipo de Ramadão ou lá o que seja).
 Fizemos os últimos preparativos debaixo de um sol envergonhado que teimava em esconder-se atrás das nuvens presentes.
 Essa conjugação levou-nos a crer que os senhores da meteorologia poderiam ter-se enganado e que talvez pudéssemos ter as condições ideais para uma prova daquelas. Mas foi sol de pouca dura. 
Ainda não tinha sido dado o arranque da prova, enquanto aguardávamos ansiosamente pela ordem de partida, decide cair o Carmo e a Trindade sobre nós.
Levou-me a pensar se não estaríamos melhor numa prova de gaivotas, aquelas barcas coloridas que se aportam durante o verão na praia da Figueirinha, ali mesmo ao lado. Mas não tinha saído de casa para isso, até porque o mar não estava para brincadeiras, e corajosamente lá arrancámos, encharcados que nem os patinhos no lago para cumprir os quilómetros a que nos tínhamos designado.
O percurso foi marcado por uma inconstância no estado do tempo. Ora o sol aparecia, ora chovia na companhia do Adamastor. 
Mas o momento mais desafiador do dia acoplou-se numa simbiose perfeita com o mais espetacular. Refiro-me à passagem pelo Portinho da Arrábida e praia dos Galapos, bem como todo o percurso de regresso a Setúbal. No meio de uma paisagem de cortar a respiração fomos brindados com uma monumental queda de granizo que testou toda a nossa capacidade para estas lides. 


Tínhamos como mental coach a natureza e a criação divina ali testemunhada. O que mais adorei foi ter feito aquele troço de estrada sozinho, o que me permitiu desfrutar de outra forma daquele pedaço de paraíso. Simplesmente espetacular!
A chegada à meta é feita num ambiente de festa que faz com que todo o esforço tenha valido a pena. Já o prémio de consolação foi entregue numa bandeja recheada de choco frito, obrigatório naquelas paragens.
 Foi mais uma vivência que se juntou a tantas outras já vividas e que faz com que valha a pena cada recordação que guardamos na nossa memória. Que a idade não nos leve esse registro que guardo com tanto carinho.

domingo, 4 de março de 2018

De regresso ao caminho - a tentativa! Em Óbidos

 

Não! Não fugi, desapareci, desisti ou morri. Não fui raptado por alienígenas, não virei um ermita nem fui levado para um buraco recôndito onde a net não funciona.
 Fui atacado por um vírus muito grave que me deixou às portas da morte literária (se é que se possa chamar literário àquilo que escrevo). Chama-se desinspiração. 
 Após um período de internamento numa vida só minha decidi arriscar novamente. O que aí vem? Não sei, mas nada de criar espectativas, um passo de cada vez. 
  Neste momento, decidi escrever porque fui alvo de um tratamento à base de visitas a lugares inspiradores. 
  E que melhor tratamento do que um fim‑de‑semana em Óbidos? 
Começamos por fazer uma mini road trip pelo oeste, sempre na companhia da linha férrea.
 Sentir o cheiro a lenha que emanava das lareiras em Dois Portos e Runa sabe sempre bem, ainda por cima numa mistura de verde e humidade que torna o cenário deslumbrante. 
 De repente surge a ideia que uma paisagem assim merece um almoço que lhe faça jus. É então que decido levar a Susana ao Dom José, no Bombarral, casa que concilia a simplicidade no servir com uma cozinha capaz de surpreender as criaturas mais viajadas. Não importa o que se coma, ali tudo é bom. Mas aconselho vivamente o carpaccio de polvo para a entrada. Que delícia!
 Atestados de um magnífico almoço seguimos viagem em direcção à lagoa de Óbidos, onde a viagem começa a trazer ao de cima toda a terapêutica para a qual tinha sido planeada.



A beleza horizontal aliada ao barulho da natureza, único que se ouvia por sinal, tornou singular a visita a este lugar. Nem sempre é assim, silenciosa, mas as gotas de água que decidiram visitar a lagoa afastaram os visitantes menos afoitos. 
 Já com os níveis de paz de espírito recarregados, seguimos viagem para o destino da pernoita, Óbidos.
 Ali entrámos noutra dimensão de um fim‑de‑semana que já por si estava a ser óptimo. Instalámo-nos comodamente no Hotel Josefa de Óbidos, uma antiga albergaria transformada recentemente em hotel e que ainda está numa fase de remodelação em alguns sectores, sendo que nem demos pelas obras, excepto pelo aviso que estava afixado no Hall. Por ser uma antiga albergaria não podemos estar à espera de encontrar quartos tão grandes como num hotel do mesmo nível feito de raiz. Mas uma coisa é certa, foi tudo feito com muito bom gosto mantendo o equilíbrio entre a decoração cotidiana e o requinte da zona envolvente. 
 Depois de instalados decidimos fazer o típico percurso pedonal pelas ruas da fortaleza, com a diferença de que, por irmos ficar por lá, não havia pressa nem horários. Podemos apreciar cada rua, cada recanto. As broas de laranja da Capinha D’Óbidos acabadinhas de sair do forno, que partilham o espaço com pão de batata doce, pão tradicional com ou sem chouriço e mais uma panóplia de iguarias feitas no local e à frente dos clientes que tornam aquela casa um espaço de passagem obrigatória para quem visita a vila. Aquecemos a alma num chocolate quente de textura aveludada que consolou a cada gole. 
 Dali seguimos para uma visita, também ela obrigatória à Livraria do Mercado Biológico, aqui as frutas e legumes biológicos dividem o espaço com milhares de livros acomodados em caixas de fruta convertidas em estantes até o tecto. Neste espaço podemos degustar frutos silvestres como framboesas, mirtilos ou amoras vendidos em pequenos cones de papel como se de castanhas assadas se tratasse. Uma ideia deliciosamente cultural. 
 Mesmo sem pressa o relógio não pára e sem darmos por isso chegou a noite e o isolamento provocado pela debandada dos turistas que enchiam as ruas antes do lusco-fusco. Começamos a sentir a necessidade de procurar o aconchego de uma comida quentinha num abrigo acolhedor. Talvez por ser aquele que apresentava mais esfomeados à mesa, escolhemos A Adega do Ramada e não nos demos mal, apesar de ficar aquém do Almoço delicioso no Bombarral. 
 Decidimos acabar a noite no bar do hotel, um tipo de pub vintage com um Barman muito profissional que servia cocktails e outras bebidas com um impressionante à vontade de quem já faz aquilo por muitos anos.
 De manhã acordamos ao som da chuva e degustamos o típico pequeno-almoço continental (nunca percebi bem este nome mas acho que poderia ser enriquecido com produtos da região, é só uma sugestão), e acabamos a estadia em Óbidos com um cafézinho dentro das muralhas. 
 Na volta decidimos reviver o passado recente e passar por Alenquer onde vivemos um bom período das nossas vidas, sem recentimentos pela mudança.
 São momentos como este que fazem com que saiba tão bem viver, fazê-lo com uma animosidade restaurada e junto dos que nos são importantes ainda sabe melhor. Obrigado Susana.